Hemoglobinas anormais
Histórico da Hemoglobinopatia S :
Antes do conhecimento no Hemisfério Ocidental, os Distúrbios Falciformes , eram conhecidos na África por nomes ONOMATOPÉICOS denotando a natureza recorrente, suplicável e dolorosa das crises. Alguns indivíduos afetados eram identificados por tatuagens nos membros e cintura. Existe casos remontados em familiares de Gana , em 1670.
Somente a Comunidade Científica tomou conhecimento sobre os Distúrbios da Síntese de Hemoglobina em 1910 . Foi HERRICK, um Cardiologista de Chicago, registrou investigação da Anemia em um estudante de 20 anos da Índia Ocidental .
O seu relato levou não apenas para o reconhecimento de centenas de Anormalidades da Síntese de Hemoglobina, como avanços científicos , envolvendo Química, Biologia Celular, Fisiologia e Genética das Proteinas.
Histórico da Talassemia
Um relato científico da Talassemia beta homozigota diagnósticado pelo Pediatra Dr. Thomas B. Cooley e sua colega Pearl Lee , em 1925, com quatro crianças com achados hematológicos e clínicos apresentando anemia grave com aumento do baço e deformidades dos ossos da face e do crânio . Destacaram um fato, as crianças eram originárias da região do mar Mediterrâneo , com descendência italiana e grega. A partir desse achado, essa síndrome foi denominada de Anemia de Cooley . Após alguns anos,devido a alta prevalência de relatos similares principalmente na Itália e na Grécia ,Líbano Tunísia, Argélia etc . , esses casos de anemias graves passaram a ser conhecida de Anemia do Mediterrâneo .
RESUMO :
Após cerca de 120 dias as hemácias normais, devido ao seu esgotamento metabólico e degenerativo, são removidas e destruídas intracelularmente em células do sistema mononuclear-fagocitário, especialmente no baço, fígado e medula óssea.
Um mecanismo largamente aceito para explicar a eliminação das hemácias envelhecidas, é a formação de agregados de proteínas de banda 3 (proteínas transmembranais) estabilizados por moléculas de hemoglobinas oxidadas (hemicromos).
Em condições normais, um adulto chega a produzir em média 200 bilhões de hemácias ao dia, substituindo número equivalente de células destruídas diariamente. Para manter estável a massa total de hemácias do organismo, a produção e destruição por dia equivalem a cerca de 0,83% da massa total de hemácias, produção esta ocorrida exclusivamente na medula óssea (MO).1, 2, , [6]
As anemias hemolíticas e algumas hemoglobinas anormais compreendem um grupo de doenças em que a sobrevida das hemácias em circulação está acentuadamente reduzida, e a medula óssea não é capaz de compensação, mesmo aumentando sua produção.
Esta pesquisa vai nos permitir verificar a freqüência das hemoglobinopatias e talassemias na população estudada bem como estudar o relacionamento de aspectos clínicos e laboratoriais em cada grupo de doenças.
TÍTULO
“Perfil laboratorial de pacientes com Hemoglobinas Anormais “
As hemoglobinas anormais apresentam grande incidência em todos os continentes, notadamente a África, a América do Norte, e a América Latina. Embora também seja encontrada em países mediterrâneos, na Arábia Saudita e na Índia. No Brasil há uma alta incidência da hemoglobina S (Hb S) no estado heterozigoto (traço falciforme, AS), em homozigose (anemia falciforme, SS), hemoglobinopatia SC, e interações da HbS e Talassemias.
Nas anemias hemolíticas a medula óssea mostra-se excepcionalmente hiperplasiada e os eritroblastos, que normalmente constituem menos que 20% das células da MO, chegam a 60% ou mais. Isto é, a relação Leucócitos/Eritrócitos mude de 4 a 5: 1 para 1: 1, podendo mesmo inverter-se.10, 11
TRIAGEM NEONATAL :
Ao incluir as hemoglobinopatias no Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN),a portaria 822/01 do Ministério da Saúde deu um passo importante no reconhecimento da sua relevância em saúde publica no Brasil. Apesar da existência de centenas de hemoglobinopatias hereditárias, apenas algumas delas exigem a implantação de programas de saúde publica no Brasil: a hemoglobina S, a hemoglobina C e as talassemias beta e alfa . 11 As hemoglobinopatias, ao contrário da maioria dos outros erros inatos do metabolismo, são polimorfismos genéticos humanos, ou seja, são alterações genéticas com alta freqüência populacional. Conseqüentemente, todo programa que se proponha a triar estas anomalias em escala nacional, deve contar com a infra-estrutura necessária não apenas para confirmar o diagnóstico laboratorial dos recém-nascidos, mas também para fornecer o tratamento completo para um grande número de pacientes e o aconselhamento genético especializado para as famílias. Infelizmente, essa infra-estrutura ainda não existe de forma homogênea em todo território nacional e dificilmente será alcançada em curto prazo. Nesse sentido, a informação e o treinamento dos profissionais que já atuam nos postos de saúde e hospitais públicos, parece ser a estratégia mais adequada no momento. 12
Segundo dados de um informe epidemiológico do SUS sobre a anemia falciforme, 25% dos doentes não atingem os quatro anos de idade e quase 80% deles não completam 30 anos. O diagnóstico destes casos e o acompanhamento clínico dos pacientes reduzem os óbitos deste grupo em até 80%. 10
A anemia falciforme é conhecida há séculos por povos de diferentes regiões da África, onde os doentes eram identificados por tatuagens para facilitar o diagnóstico, e proibir o casamento com membros sadios do grupo.
Estudos científicos das células falciformes datam de um século e meio atrás. 2 Estudos de Cruz Jobim, no Rio de Janeiro, em 1835, de Accioli, na Bahia, em 1908, de Lebby, em 1846; e de Hondenpyl, em 1896, nos Estados Unidos podem ser considerados como os pioneiros da anemia falciforme. Entretanto foi Herrick, em 1910, quem observou a forma anormal dos eritrócitos do sangue periférico de um estudante negro, procedente da Jamaica, apresentando um gravíssimo quadro anêmico, acompanhado de icterícia, complicações pulmonares e úlceras de membros inferiores .12
Por causa da deformação ocorrida nas hemácias, o termo doença falciforme “sickle cell disease” foi criado e empregado pela primeira vez, em 1922, por Mason. Este relacionou varias características comuns entre os portadores dessa doença: todos eram negróides, apresentava icterícia, fraqueza, úlceras de membros inferiores, anemia intensa, reticulocitose e eritrócitos falcizados no sangue periférico. 2
Em 1927, Hahn e Gillespie demonstraram a dependência do fenômeno da falcização com a tensão de oxigênio, atribuindo o defeito à hemoglobina, e não somente ao glóbulo vermelho. Em 1930, os estes resultados foram confirmados “in vivo”, com a identificação de células falcizadas em condições de tensão de oxigênio abaixo de 40 a 45 mmHg. Em 1935, Diggs e Bill notaram que algumas dessas hemácias se mantinham na forma falcizada, mesmo após a reoxigenação. Em 1936, Ham e Castle propuseram uma explanação da fisiopatologia do processo de falcização, com uma teoria em que ocorria um “ciclo vicioso de estase eritrocitária”, causando um aumento de viscosidade levando a demora do fluxo sanguíneo através dos capilares, diminuindo a tensão de oxigênio, provocando mais falcização.2, [13]
Em 1946, Sherman demonstrou que as células falciformes, ao serem desoxigenadas, exibiam birrefringência óptica, que constitui a primeira evidência de que a hemoglobina S, na ausência de oxigênio, apresentava uma estrutura ordenada no interior dos eritrócitos, e sugeriu a Linus Pauling que a Hb S era molecularmente diferente da hemoglobina normal. Em 1949, Pauling e seus colaboradores mostraram essa diferença por meio de mobilidade eletroforética e atribuíram esse fenômeno à mudança de carga da globina. Em 1956, Ingram, utilizando a técnica de “fingerprint” (eletroforese bidimensional associada com cromatografia), demonstrou que a anormalidade química da HbS era devida a substituição do ácido glutâmico pela valina na posição número 6 da cadeia beta (ß 6 Glu—Val), produzindo a perda de duas cargas negativas por molécula de hemoglobina . 2
A partir de 1978, com as observações iniciais de Kan e Dozy, foram introduzidas técnicas de biologia molecular no estudo da HbS. Por meio de enzimas restrição, foi possível determinar que a HbS teve múltiplas origens geográficas. Os estudos foram realizados com populações da raça negra da África, Jamaica e em Afro-Americanos através da análise do agrupamento dos genes da globina beta, no cromossomo 11. Estes trabalhos demonstraram que há, pelo menos, cinco tipos de haplótipos para o gene beta S: Benin, CAR, Senegal, Camarões, Árabe-Indiano. Todos apresentam a mesma mutação de troca de ácido glutâmico por valina, na posição 6 da globina beta, porém, com diferentes extensões de lesões moleculares ocorridas ao longo do grupamento dos genes beta, delta, gama, pseudo gene beta e épsilon . 2
A hemoglobina C (HbC) foi descoberta em 1950 por Itano e Neel. Estudos realizados em 1958 por Hunt e Ingrans, revelaram que essa variante origina-se de substituição do aminoácido número 6 da globina beta, o ácido glutâmico pela Lisina (ß 6 Glu—Lis). O ácido glutâmico com carga negativa (-), substituído pela Lisina com carga positiva (+), faz alterar completamente a mobilidade eletroforética da hemoglobina mutante sendo facilmente diferenciada de outras hemoglobinas . [14], [15]
A origem de HbC, tal como da HbS, é africana por isso sua propagação foi ampla na região do Mediterrâneo e Américas por meio de escravos negros em diferentes períodos da história da humanidade. Esse processo de distribuição dos gene da globina βC possibilitou sua interação com outras hemoglobinas variantes como a HbS (HbSC), e as combinações com talassemias (HbC/Tal β+, HbC/Tal β0), e combinação com Persistência Hereditária de Hemoglobina Fetal (PHHF) (HbC/PHHF). Casos esporádicos de associações com HbD, Hb Lepore, HbG Filadélfia também podem ser encontrados na literatura. 2, 14
As talassemias alfa, são diferenciadas e classificadas de acordo com o número de genes alfa deletados. Em uma pessoa normal os quatro genes alfa são funcionantes (α,α/ α,α), sendo dois do cromossomo paterno e dois do materno. A deleção do gene significa o não funcionamento total desta estrutura gênica. Assim, as talassemias alfa se devem à deleção de um gene alfa(-,α/ α,α ), dois genes alfa(-,-/,α,α) ou (-,α/-,α), de três genes (-,-/-,α) (Doença da Hemoglobina H)e de quatro genes (-,-/-,-). 2, 14,
Na década de 80, os estudos moleculares realizados com os genes de globina alfa revelaram que vários defeitos genéticos podem causar talassemia, e que dependendo da extensão da lesão do gene, a síntese da globina alfa apresenta diferentes intensidades de síntese. Como resultado desse desequilíbrio entre a síntese de globina alfa e beta, a globina beta continua sendo sintetizada normalmente, e por isso, o “excesso” de globina beta livre se junta para formar tetrâmeros de globina β4 , resultando na Hb H. Quanto maior a queda de síntese de globina alfa, maior será também a concentração de Hb H. Nos recém-nascidos, a diminuição da síntese da globina alfa, afeta sua relação com a globina gama(g) normalmente sintetizada, formando tetrâmeros de g4 resultando na Hb Bart’s. A alfa talassemia, tem enorme prevalência no sul da Ásia, é freqüente nos negros e muito rara nos caucasóides. [17], [18], [19]
Os casos de talassemia heterozigota são de difícil diagnóstico, pois as técnicas laboratoriais não são sensíveis o suficiente. Aceita-se o diagnóstico presuntivo que consiste em leve anemia microcítica com ferritina normal ou refratariedade ao tratamento com ferro. A doença da hemoglobina H é rara no Brasil. 2,
As Talassemias Beta são mais heterogêneas que as do tipo alfa. As alterações quantitativas da síntese da globina beta são classificadas como Talassemia β0 (beta zero) quando não há síntese de globinas, e β+ (beta mais) quando existe alguma síntese de globina beta, mesmo que discreta. O mesmo processo de supressões parciais ou totais também pode ocorrer nos outros genes situados no cromossomo 11: beta, delta e gama . 2, 12, 14
A beta-talassemia minor, que caracteriza o estado heterozigoto da talassemia beta, apresenta elevada prevalência nos povos do mediterrâneo oriental (italianos, gregos, árabes e turcos), baixa prevalência nos negros, e muito rara nos anglo-saxões. A maioria dos pacientes é assintomática e apresentam dosagem de hemoglobina A2 acima de 3,5%, sendo que o aumento não é constante. 2, 12, 14
Os estados do sul do País apresentam uma grande incidência de indivíduos talassêmicos devido, principalmente, a enorme colonização italiana. Como a beta talassemia minor apresenta sintomatologia discreta, o estudo dos pais, irmãos e filhos do paciente é de grande utilidade. O diagnóstico é importante para evitar que o portador seja erroneamente diagnosticado como ferropênico e tratado repetida e improficuamente com ferro. Na homozigose, denominada talassemia major, a anemia é intensa pela virtual falta de síntese de cadeia beta existindo somente hemoglobina A2 e HbF. 2, [24], [25], [26], [27]
No Brasil, a miscigenação racial facilita a propagação das hemoglobinas anormais. Em vários estudos realizados no país, foi identificado um grande número de crianças portadoras de doença falciforme incluindo: traço falcêmico (AS), anemia falciforme (SS), Hemoglobinopatia SC, interações S/ Beta0 (βS/β0) e S/Beta+ (βs/ β+).7, 8, 9, 12,
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO - IPPMG
INSTITUTO DE PUERICULTURA PROFESSOR MARTAGÃO GESTEIRA -UFRJ
Trabalho de Mestrado em :
Perfil laboratorial de pacientes com hemoglobinas anormais acompanhadas no Serviço de Hematologia do IPPMG/UFRJ.
Descrever a freqüência de hemoglobinopatias no IPPMG e sua distribuição em relação ao sexo e outras características populacionais.
Associar os dados laboratoriais às hemoglobinopatias encontradas, identificando as principais alterações em cada caso.
Descrever as alterações hematológicas presentes nas várias hemoglobinopatias.
Avaliar a expressão destes achados na infância, identificando as principais intercorrências clínicas.
Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira
TIPO DE ESTUDO
Descritivo nos diversos casos de hemoglobinas anormais e talassemias.
A coleta de dados laboratoriais inclui os seguintes itens:
1- Hemograma Completo.
2- Eletroforese das hemoglobinas em tampão alcalino e ácido.
3- Dosagens de HbA2 e HbF.
4- Pesquisa HbH .
5-Contagem de reticulócitos.
6- Dosagens de bilirrubinas, ferro, transferrina e ferritina.
A investigação familiar será realizada, sempre que possível, com o objetivo de esclarecer associações complexas de genótipos, pois, em muitos casos, o diagnóstico só é possível com o estudo familiar. 2, 5, 6, 7, 16
COLETA DE DADOS
Levantamento dos dados clínicos e laboratoriais a partir do estudo dos prontuários arquivados no IPPMG..
PROCESSAMENTO E ANÁLISE DE DADOS
O processamento dos dados será realizado em programa Epi-info 2000, versão 1.1.2.
ESTRUTURA DA HEMOGLOBINA
FORMAÇÃO DA ESTRUTURA QUATERNÁRIA DA HEMOGLOBINA
Proteína Transportadora de oxigênio
A hemoglobina (Hb) contida nas hemácias é uma proteína de estrutura globular e quaternária composta por quatro cadeias polipeptídicas ,ou cadeias de globina ,e um grupo prostético ( o grupo heme ), ligado a cada uma das cadeias de globina .As cadeias de globina tem sido agrupadas conforme suas similaridades genéticas e estruturais devido as síntese multigênicas específicas para cadeias de globina do tipo alfa e beta . A globina do tipo alfa ( α ) se deve a presença de dois genes específicos para produzir globina alfa ( α ) e um outro gene também especifico para gerar globina zeta ( ζ ) , todos no cromossomo 16 . As cadeias de globina do tipo beta ( β ) são sintetizadas por genes unitários e exclusivo para globina beta ( β ) , delta( δ ) , gama( γ ) e épsilon ( ε ), todos localizados no cromossomo 11 . Hemácias fluindo por um vaso sanguíneo Grupamento prostético heme, presente na molécula de hemoglobina O heme está localizado em uma fenda próxima da face externa da molécula de hemoglobina, delimitada por cadeias laterais de resíduos hidrofóbicos. É este ambiente apolar que torna possível a ligação reversível do oxigênio ao ferro sem que esse seja oxidado. Esse átomo está diretamente ligado a duas histidinas chamadas de histidina proximal e histidina distal.
O monóxido de carbono é um veneno porque se combina com a ferro-hemoglobina, bloqueando o transporte de oxigênio. A afinidade da hemoglobina à CO é cerca de 200 vezes mais que para O2.
Paciente com Anemia falciforme
Presença de Numerosas Hemácias em Foice ( Drepanócitos ) , Hemácias Policromatófilas e presença de Eritroblastos .
Paciente com Talassemia
Hipocromia, microcitose e Poiquilocitose . com presença de esquisócitos.Raros Eritroblastos .
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[10]Castilho S, Silva ME, Lopes M, Souza R, Amorim L, Pecego MM, Bueno L, Calado A: Pesquisa de hemoglobina S (HbS) em doadores de sangue do HEMORIO. Bol. Soc. Bras. Hematol. Hemoter. 1996; 18: 1.
[17] Steinberg MH. The Interaction of alpha-talassemia with Hemoglobinopathies. Hem. Onc. Clin. North America 1991; 5(3): 453-473.



